O que te move?


E todos os dias saía da faculdade e ia para o metro, para onde todas as minhas colegas se encaminhavam. Mentia diariamente dizendo que teria de esperar pelo meu namorado imaginário. Eu não tinha ninguém.

Ganhar uma bolsa tinha sido um sonho tornado realidade, mas ter dinheiro para pagar um quarto era uma coisa completamente diferente. As poucas explicações que dava a alunos do secundário (os poucos que tinha o prazer de conhecer), nem chegavam para comer durante todo o mês. Aproveitava os lanches que um colega sempre levava para todos. Muitas vezes, não comia na hora. Guardava para aquelas alturas críticas do mês. Fora as folhas pagas da universidade que custavam quase todo o dinheiro que tinha.

E calmamente as pessoas dirigiam-se para as suas vidas monótonas, para os lares que muitas vezes os acolhiam, e muitas vezes os expulsavam. As luzes apagavam-se a uma certa altura e no silêncio da noite, com frio e com a barriga a dar horas, encolhia-me no banco e chorava. Os dedos gélidos nem tampouco possibilitavam-me de estudar ou tentar escrever a poesia que mais estimava.

Nos meus sonhos, tentava pedir uma salvação. Alguém que pudesse salvar-me, levar-me desta vida que tinha lutado imenso para ter. E as horas passavam. Os metros de uma em uma hora acordavam-me num sufoco. O coração batia-me no pescoço, todas as vezes. E tentava dormir assim. Encolhida, com frio, fome e dor nas costas. E continuava a aguentar. Afinal, ter uma vida melhor era o que movia-me todos os dias; era o que me tinha arrancado do teto que protegia-me da chuva e do relento; era o que fazia-me estar a dormir numa estação de metro por 5 anos.

E sem que desse conta, amanhecia e aquela luz que mais dava-me energia aparecia, para lembrar-me que era mais um dia para lutar pelos meus sonhos. Afinal, era isso mesmo que movia-me.

O que te move?


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