Quando morremos de facto? Era essa a pergunta, que questionava-me todos os dias, em que a minha existência era um tremendo fracasso. Questionavam-me quando comecei a sentir-me assim. Não memorizei a data. Foi a única resposta que soube dar. A vida é tão abstrata que quem é uma simples obra prima pintada de cores primárias, fica de lado.
Não entendi a rapidez com que movi-me para o lado da escuridão. Ela consome-nos tão rápido que a única saída é mesmo desprezar-nos.
Pergunto-me agora, se a morte é somente quando o coração pára e o cérebro morre. Como então explicam o facto de estar morta e continuar a ter batimento cardíaco? É simples: a alma desvaneceu e faleceu.
Os meus pés pisam o mesmo chão até à escola todos os dias, eles levam-me de volta a casa, não morro de fome mas ainda assim, não consigo ser grata, não consigo amar o que tenho, amar-me ou até lutar para ficar.
Ficar para quê?! Vivemos num mundo onde quem é hipócrita e egoísta tem tudo, e quem é meigo e luta pelo que tem, nada merece. Cansei-me. Cansei de tudo o que me rodeia. A rotina engoliu-me, o amor destruiu-me, a falta habitou-me e a morte sugou-me. Os órgãos que ainda vivem em mim, em breve, deixarão de trabalhar. Sinto-me numa fila de dominós em que falta pouco para a minha peça cair.
Queria poder explicar o porquê desta repentina partida, aos que mais adoram-me, mas sei que por palavras não entenderão. [Até então, nunca o entenderam.] Por vezes, as atitudes que os outros fazem têm mais impacto na nossa vida. Espero que assim que morra, consigam entender que já há muito estava morta por dentro e que nada poderia salvar uma alma oca. Espero também que não se culpem de todo, pela atitude tomada, visto que nada poderiam ter feito para que a minha decisão mudasse.