Desapega de tu mesma


Apagada, estava ela por causa daquelas roupas, daqueles modos, daquelas danças chatas e cansativas.

Embaralhada, estava ela por causa dos sentimentos confusos dentro de uma mente tão jovem e sonhadora.

Enamorada, estava ela por àquele rapaz mais velho do que ela. Algo nele o chamava para perto. Exigia dela uma atenção considerável. 

Ofuscada, estava de uma luz maior/ mais expressiva do que a dela. Diziam-na que de nada ela tinha serventia. 

Para que, afinal, ela deveria servir?! 

Recentemente, ela havia escutado de uma “mulher da vida” : “Desapega de tu mesma”. Ela não sabia como fazer isso, até porque em um mundo no qual muitas coisas são pré-estipuladas se é mesmo bastante complicado de se fazer algo que não tem uma fórmula específica. 

Como desapegar de algo que não ao certo se sabe o que é?! 

Para isso, ela precisava primeiro de se redescobrir para além de gosto por gelado ou apreços por obras literárias. Ela precisava de redescobrir-se no meio de tanto caos, precisava de retirar toda a lama de cima de si mesma para poder deixar o ouro reluzir. 

Ela foi educada para ser servente, porém ser servida se era um sacrilégio. Na verdade, ela até podia ser servida como qualquer outra mulher, apenas deveria ser “leiloada” para o homem que mais oferecesse por ela.

Quantas vezes ela escutou “minha filha sabe cozinhar como nenhuma outra” ou “minha filha sabe acalmar um recém-nascido belamente” , entre outros “e a minha filha sabe”.

O mundo se é bastante competitivo em si, mas ela arrisca-se em dizer que a competição entre mulheres se é a principal categoria.

Deveríamos desde muito novas aprendermos a estender as mãos umas as outras, mas nos ensinam a criticar umas as outras. 

Ela fartou-se. Não queria ser lembrada por um arroz bem cozido, ela queria mesmo era ser lembrada por várias panelas de arroz queimado por ter dado mais atenção a uma pesquisa importante na descoberta da cura do câncer. Queria ser lembrada pela graduação na faculdade de física nuclear. Ou por ter ocupado um espaço designado apenas aos homens.

Ela achava esta frase “isto serve apenas para os homens” um tanto quanto ridícula, afinal somos humanos, temos lá nossas limitações mas a força de vontade se é o pilar para se fazer bem qualquer coisa. E esta força não provém de nenhum atributo no que tange a sexualidade.

No meio a este turbilhão de palavras confusas e quase que desconexas ela foi ter com ela mesma que a muito tempo não encontrava, ou melhor, reencontrava. 

Ela tinha pressa. Pressa de viver. Pressa de se desapagar. Pressa de se reacender. 

 


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