Um café amargo pois a vida já se é doce demais


Ótimo, tudo mesmo que eu necessitava nesta tarde chuvosa era que tu, um completo estranho, sentasses na minha mesa favorita do meu café favorito.

O dia já começou como todos os outros, brigas com meu avô ao acordar, despejar comida para o meu gato na vasilha e seguir todo o resto do dia como mandava o decoro rotineiro de minha vida.

Seria pedir muito que tu não sentasses na minha mesa favorita?! Acho que sim afinal a senhora Vida não se dá bem de jeito algum comigo, sempre a pregar-me boas peças e tragédias quase que pré-anunciadas. Se tu pensavas que eu havia de mudar de mesa estavas enganado, aprendi desde muito nova a dar “um boi” para entrar numa briga mas não dar “uma boiada” para sair dela.

Mas naquele momento ao olhar àquele par de olhos verdes à minha direção eu recuei como um gato acuado tal qual o meu quando eu o repreendo. Tu querias despir minha alma com aquele par de esmeraldas no lugar dos olhos.

Limitei-me a pedir apenas um café o qual diferente dos outros dias era sem açúcar,  despejar uma nota apressada no balcão do velho senhor que me atendia perguntando-me se eu estava bem e eu a acenar afirmativamente-freneticamente para depois de quase tropeçar em várias coisas pelo meu caminho alcançar a porta da entrada para assim conseguir respirar livremente.

Como já diziam felicidade dura pouco e é verdade, em termos, ao menos. Se é que em algum momento eu já fui feliz. Puxo ainda mais as mangas de meu casaco preto para tentar me aquecer e tapar o que ninguém ao meu redor precisa de saber e de seguida começo a caminhar “tranquilamente” até que alguém me catuca o ombro. A senhora Vida não descansa mesmo em serviço, era tu, tinha de o ser.

Mas ela queria aprontar mais comigo naquele dia, e descobri por ironia – lê-se em parceria com o – do senhor Destino que tu eras meu novo colega de trabalho, o outro havia sido dispensado na semana passada. Mas estes senhores não se contentaram apenas com tu sendo meu colega de trabalho, tu tinha de ser mais, o pouco não os apetecia, para eles não se era suficiente.

Tu te tornaste meu amigo! Tu te tornaste meu confidente! Tu me ajudaste com os problemas diários! Tu estavas lá a cada crise de ansiedade que eu tinha! Tu me aconselhavas! Tu me davas broncas quando era necessário as dar! Tu me amavas! E eu te amei… NÃO!  EU AINDA TE AMO!

Mas agora, tu não mais estás aqui, a doença te levou, a senhora Morte te desejou, eu travei uma batalha com ela por muitos anos, mas por fim dando o seu brado de vitória tirou-te de perto de mim. Eu a invejo, às vezes, pois agora ela tem uma alma brilhante e bondosa consigo. Mas quando olho para meu ventre e ali vejo a pequena elevação percebo que ela que tem de ter inveja de mim, afinal estou a carregar um pedaço de nós dois.

Um fruto do nosso complicado amor a(l)mado.

Com saudades, seu – eternamente seu – anjo.


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