Escrevo porque tudo em mim dói.


Escrevo porque tudo em mim dói. Escrevo porque tudo em mim sangra. Tenho em mim todas as dores que já senti, alojadas e elas revivem-se na minha mente, repetidamente. É como se me torturassem, a cada dia, mais um pouco e a dor não vai embora nunca. A ferida não consegue simplesmente cicatrizar.

Por isso escrevo. Escrevo esperando que alivie um pouco as dores, para que a hemorragia estagne. Ocasionalmente, a dor para. Deixa de doer. Simplesmente do nada. As palavras saem-me, sem que dê por isso, flutuando sobre o meu caderno, que é mortalmente manchado pelas gotas de sangue que caem, de segundo em segundo. Elas secam, paro de escrever e tudo reaparece.

Diariamente, tento passar para o papel a dor que sinto. Raramente, passei em palavras um acontecimento bom, algo que fez-me rir, conhecer alguém diferente, um café inesperado. Esses textos deixaram de existir. Não há nada de novo na minha vida. Estou presa a uma rotina que eu própria me impus. Certamente, estou a morrer na minha própria armadilha. Criei este veneno, coloquei-o no meu copo favorito e engoli-o, mesmo sabendo a dor que iria enfrentar, de seguida.

E continuo escrevendo. O sangue cansou-se de cair. A dor começou a alastrar-se pelo meu peito. Não há nada que a impeça de crescer, não há nada que a faça parar. Segue, destrói tudo o que vê pelo caminho, tortura-me e espera que, desta vez, consiga terminar isto. Custa-me. Tenho vergonha. Se alguma vez, conseguisse terminar com esta vida miserável, sei que iria sentir nojo. Ainda mais nojo do que sinto, quando me olho no espelho.

O começo do caos está em mim. A cura está aqui dentro, no meio da dor, tentando que a veja. Sei que ela existe. Um dia, poderei encontrá-la, quando isto for exaustivo demais, quando estiver cansada de sofrer. Por agora, ainda que doa, tem de doer. O abismo não está ao virar da esquina, pois ele sempre esteve presente dentro de mim. Por mais que o tente por cá para fora escrevendo, ele não sai. No dia em que sair, poderei finalmente achar a cura para tudo isto. Até lá, escrever é um antibiótico que dura menos do que deveria. É agridoce e não custa tanto tomá-lo. Dói mais o que cá dentro é destruído. Tudo começa e acaba com palavras. Elas podem mudar alguém para todo o sempre. Foram essas mesmas que me puseram neste estado e são essas que irão tirar-me disto.


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