Não sei até que ponto a minha existência vale para alguma coisa. Talvez até não valerá para coisa nenhuma. A dor sempre nos desarruma, perturba e muda. Persegue-nos em cada obstáculo e até na busca pela felicidade.
A verdade é que a cada dia que passa, a nossa existência passa a ser qualificada, pressionada, duvidada. Afinal o que estamos fazendo de benéfico no mundo? Será que sei o que quero fazer amanhã?
Os jovens estão tão engolidos pelas suas melancolias que se esquecem de viver a infância, a adolescência, a amizade e a inocência. Estamos dormentes. Será que é a dor que nos torna dessa forma? Será a dor que nos anestesia para qualquer tipo de felicidade ou argumentos para que saibamos sair do sofá e ir em busca de outro lugar? Sejamos nós os únicos culpados dessa dormência?
Já não sabemos o que é não estar dormente, com o corpo ainda assim doendo. É tão estranho e contraditório estar anestesiado mas ainda assim doer. Não dói no seu máximo, porém sentimos a picada, a pressão exercida. Sabemos que há uma ferida a ser cicatrizada, sabemos aonde se encontra, como a fizemos. Atenuamos a dor, mantendo-a por mais um tempo connosco.
No fundo, ninguém quer curar-se para sempre. Não saberíamos viver sem a anestesia por perto. Todas as sensações a acontecer, a ansiedade a dar os seus sinais de alerta, os ataques de pânico a vir e a ir. Enlouqueceríamos dessa forma. Não estaremos já, todos loucos?
A forma mais abstrata de encarar tudo isto é tentando fazer com que a morfina dure. Estamos já, com tenra idade, absorvendo morfina, desejando que acabe, não procurando cura (pois quem a toma sabe que já não há outro caminho, outra esperança) e nos esperançamos pois sabemos que é o fim.
Ansiamos o fim, não o recomeço. É por isso que a nossa geração é mais doente do que a anterior, mais melancólica e incurável. Porque assim o queremos. Porque preferimos anestesia à dor real que termina por passar. Preferimos uma morte lenta, a um abanão forte da vida. Somos todos fracos. Uma geração de cobardes e fracos. Somos feitos de nada. De um redondo nada. Somos fim, mesmo quando nascemos e era suposto sermos começo. Somos a desgraça, a eterna depressão. A incurável melancolia.