Voltei a escrever. Voltei a sentar-me para rabiscar papel, passar para o pc e para partilhar mais do que o acento do autocarro com desconhecidos. O coração aperta como da primeira vez, mas desta vez traz saudade, traz mágoa comigo mesma, mágoa de ter deixado de lado algo que me salvou tantas vezes de desistir. Afinal de contas, achei-me crescida e se ainda cá estou devo ao facto de escrever. E foi com falta de voz que me apercebi que tinha saudades de sair de trás da cortina.
Entulhei a minha vida de coisas, porque achava que estava bem, resolvida, preparada para dar o corpo e a alma às balas. Hoje, sinto que deitei a toalha ao chão, que analisei a minha vida e que no meio de tanta coisa me perdi. Trazia em mim tantos sonhos para ontem, que me esqueci que pode não haver amanhã. E agora, onde ficou o fim, onde recomeça, por qual ponta se retoma o novelo, esta bagunça.
Comecei por me dar tempo quando queria escrever, por abrandar o passo quando a escrita me invade. Retomei a calma numa folha de papel, num texto jamais escrito, mas pensado me silêncio. Admito que os dedos tremem, que o cheiro do papel está mais intenso, e escrevo por mim, para salvar também todos aqueles que me aturaram nos últimos longos meses. Peixes, sonhadora, nunca deixei de gritar ao mundo que trazia todos os sonhos do mundo nas algibeiras, mas todos os bolsos rompem e os meus romperam. Decidi de cabeça quente, com tanto medo de os perder, que quis viver tudo em cima do joelho, e agora, nem me lembro que sonhos eram esses, mesmo que esses sonhos me sejam o meu teto, o meu ombro todas as noites, o que me faz levantar da cama, o que me move. Sinto que comecei a correr em torno de mim mesma sem parar, com esperança de não ficar zonza de não cair e esfolar os joelhos. E esta dor é semelhante à dos joelhos esmurrados, afinal de contas já sabia que o piso não estava para correr e mesmo assim encarei o jogo como a final das Champions e escorreguei.
Escrever era tão certo que deixei de lhe dedicar tempo, dedicar amor e dedicar de mim, como se fosse algo tão intrínseco que não me fosse falhar, mas eu falhei primeiro, redondamente. E agora, será que ainda me trata por tu? Será que ainda me sai naturalmente? Será que ainda não me preciso de ler? Morro de medo, como se voltasse a pegar numa bicicleta e quisesse trazer as rodinhas comigo aos vinte e três anos.
Dei por terminado o capítulo de que não escrevi por medo, fechei esse livro e arrumei na estante para dar lugar a uma nova história.
A saudade comanda a vida e eu voltei a escrever (ou viver, como lhe quiserem chamar).