Papel de adulta não me serve.


Sempre quis ser crescida, adulta não sei. Mas agora que a idade aperta e experimentei, sinto que é uma peça que não é do meu tamanho. Fica justa, não me assenta bem. Porquê que quando somos crianças ninguém nos diz que este mundo dos (mania que são) grandes é tão estreito? E logo eu que sofro de claustrofobia, nem me tinha metido por este caminho.

Quando somos crianças ensinam-nos certos valores que eu pensei seres para sempre, mas agora até me coloco a pensar. Primeiro obrigam-nos a dar beijos a todos os tios e avós, até aos tios-avós que nunca vimos, mas agora que somos adultos, sorrimos carrancudos e nem “boa tarde” sabemos dizer. Em segundo lugar andamos a correr, todos irritados e chateados, parecemos adolescentes mas com mais idade e responsabilidade. Em seguida (e última, para sairmos daqui) sempre me ensinaram a ser verdadeiro, a assumir a minha culpa, ser sincero, perdoar e ser perdoado, e neste mundo dos adultos é preciso ser falso. Passo a explicar:

Não podemos chorar, que não temos tempo. Não podemos reclamar, porque é a vida. Não podemos estar cansados, porque é sempre a andar. Não podemos desabafar, porque a nossa vida comparada com a dos outros é easy. Não podemos confiar, porque nas costas dos outros vemos as nossas costas. Não podemos ser sinceros, porque isso é coisas dos pequenos. Então, em que ficamos?

Agora percebo-te, meu querido Peter Pan, tu sabias destes segredos guardados a sete chaves e ninguém acredita em contos de fadas. Devia ter lido mais umas mil vezes até não duvidar. Não posso ser criança em corpo de crescida? Passar na rua despercebida com um peluche debaixo do braço? Sonhar numa mesa enquanto tomo um café? Sorrir parado no semáforo para um senhor desconhecido? Não posso fechar-me num colo comodo e dizer que tenho medo?

Quero ser crescida, mas vestir pele de criança. Essa sim, é à minha medida e assenta que nem uma luva.


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